segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O tempo corre. Você corre contra ele? Corre dele? Corre com ele? ou: Sobre a arte de habitar o tempo. ou ainda: Somos todos lendas. (ao som de "Something Good", by Estelle)

Música acessível em: 

https://www.youtube.com/results?search_query=estelle+something+good

O tempo corre. Os anos correm. E por vezes você muda... mesmo achando que está no mesmo lugar. Por vezes você anda, anda muito... mas anda em círculos.

SPOILER ALERT:







No final do tempo, está a morte. 

Então, a questão não é O QUÊ VOCÊ FAZ COM O TEMPO QUE TEM. A questão correta é COMO VOCÊ USA O TEMPO QUE TEM? 

COMO SÃO OS USOS QUE VOCÊ TEM FEITO DESTE RECURSO FINITO E NÃO-RETORNÁVEL, NÃO REUTILIZÁVEL?

Isto é importante, para se ter em perspectiva que Lenda de Si você está em vias de construir. Cada decisão sobre o que fazer com o tempo (que pode incluir usar o tempo presente para decidir o que fazer no tempo futuro).

O tempo corre, isso é inevitável. E você, com sua singularidade, vai um dia deixar de acontecer. Você, criatura feita da mesma matéria que já foi utilizada para fazer estrelas, tempestades, vulcões, dinossauros, árvores gigantes, condes, caciques... e que agora surge na forma sua, que um dia vai se desfazer. 


Sua grana não será útil para você, nem seus títulos, nem suas posses... Você será convertido em uma lenda, que será contada adiante, de alguém que um dia existiu. Assim como estrelas, tempestades, vulcões, dinossauros, árvores gigantes, condes, caciques... 

Que tipo de lenda você gostaria de ser? Que tipo de lenda você é, hoje? 

Beijo grande e forte abraço. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Pontas soltas, pontas duplas, pontos em cruz, pontos de umbanda... (ao som de "Frank Sinatra", by CAKE)

Música acessível em:

https://www.youtube.com/results?search_query=cake+frank+sinatra

O frio e úmido vento insiste em entrar pelas frestas da janela, nesta madrugada. Clima atípico, para esta época. Desejo fazer faxina, tenho de organizar coisas de trabalho, tenho de organizar o meu currículo desatualizado... Quero viajar.

Deveres, desejos e taças espalhados pela mesa, ao lado do meu computador.

Eu não sei...

E aceito o fato de não saber. Eu preciso de um tempo para me dar um pouco de atenção... Queria beber pisco (aguardente de uva), mas meu uso de álcool surpreendentemente alto do último fim de semana, em uma festa, faz-se me não desejar tomar pisco... desejo o sabor, mas não desejo o álcool.
Definitivamente não tenho talento para alcoolismo. 

Esse foi um ano de transformações. Eu comecei o ano quebrado e desapontado por dentro, imaginando que o ano seria uma grande decepção... E sambei carnaval, fiz 5 novos amigos em distintas partes do globo, re-encontrei um irmão de consideração que não via há anos, ganhei concurso de "lip-sync" em um boteco de periferia em uma cidade no interior da Argentina (e ganhei uma garrafa de um drink barato!)... Fiz mochilão - dentro e fora do país, fiz comunicações, escrevi um capítulo de livro, dei um curso, dancei de forma sensual com mulheres de mais de 40 anos, fui confundido com imigrante africano, ganhei bebida de graça (Fernet, um drink argentino que nunca provei antes) e banho de graça de um recepcionista de um hostel no qual eu não estava hospedado, conheci um casal de idosos motociclistas, encontrei pessoalmente com um amigo de anos... lutei, de diversas maneiras contra o movimento de destruição das classes trabalhadoras em meu país...

Sim, estou feliz. 

Fazer faxina, terminar as coisas de trabalho, escrever artigo. Tarefas para as próximos e derradeiros 14 dias.

E que venha 2017.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Anotações de tempos nublados, frios e nublados (ao som de "Muddy Waters", by LP)

Música acessível em:
https://www.youtube.com/results?search_query=Muddy+Waters+LP

Água. Escuro. Abajour.
Dentro de mim, no momento, há só um vazio obscuro.
Vazio da ausência de sentido.

Noite. Frio. Vento. Fim de mês. Fim de semestre.
Várias coisas de trabalho atoladas na mente e na mesa.
As bagunças da mesa são as mais fáceis de se arrumar.
Quanto tempo demora para aprender a viver de verdade?

Houve um tempo em que eu lutei para não ficar sem dinheiro.
Não tenho muito, mas já tenho o suficiente pra saber que não é tudo.
Desejo algo que não sei o que é, sinto saudade de algo que nunca tive.
Quanto tempo demora para aprender a se amar de verdade?

Construímo-nos  pelos rastros de nossas decisões.
Definimo-nos pelos rastros de nossas lágrimas.
Desenhamo-nos pelos rastros de nossas batalhas.
Não me diga que existe O Caminho, pois sempre se caminha para a morte.

Dentro de mim, no momento, há só um vazio obscuro.
Tento me esconder do vazio com as coisas de trabalho bagunçadas na mente.
Quanto tempo demora pra aprender a dar sentido ao vazio?
Quanto tempo demora pra aprender a dar sentido ao vazio?
Quanto tempo demora pra aprender a dar sentido ao vazio?

Ok, vamos organizar essa merda, resolver essas coisas de trabalho, depois pensamos no assunto.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Sonhos de um coração recauchutado (ao som de "Rags and old iron", by Nina Simone)

Música acessível em:

https://www.youtube.com/results?search_query=rags+and+old+iron+nina+simone


Dia triste e retraído pra um coração recauchutado.
Pensa como foi incauto, ousado, arrojado e destemido.
E agora só há o fado.
Num canto, e só, está retraindo.

Pensa em como amar não é divertido.
Como os corações se acabam, atolados, enredados, divididos...
Em colisões de mundos cindidos:
Vou ou fico? Qual meu fardo?

Ele hesita, lúcido e trágico,
Queria ser mágico,
burlar o destino.

Sozinho, ele chora,
Verifica a hora,
E dorme sozinho.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cafeína clássica, drinks, aranhas... um monociclo chamado desejo. #somostodosalice (ao som de Bolero de Ravel)

Música acessível em:

https://www.youtube.com/results?search_query=ravel+bolero

Às vezes é necessário não pensar.


Cachaça.

As notas florais desta cachaça tornam esta tarde menos deprimente. O sol acima nos oprime com seu calor, e tenta nos afogar no mormaço por ele produzido. Está quente demais para um café. E minha cabeça já está quente, cansada, estressada, abafada e afobada demais para qualquer dose de cafeína. Necessito de algum prazer... Então temos cachaça.


Cachaça.

Bem, mas como eu havia dito, às vezes é necessário não pensar. Pensar é ótimo, fantástico, prazeroso... se você tem certeza de qual o uso que você fará deste pensamento. Pensar pode ser doloroso também - e às vezes pode ser os dois (prazeroso e doloroso) ao mesmo tempo. O problema está em que as pessoas pensam o pensamento como uma linha reta, quando na verdade são várias linhas sinuosas, jazzísticas, rede irregular de teia de aranha... onde nós somos a mosca.

Quem nunca ficou com uma coisa na cabeça que não gostaria de estar pensando?

Cachaça.

O pensamento é um guia, mas deve-se tomar cuidado para ele não se tornar seu cavaleiro - e te conduzir com antolhos. Não há vacina nem cura pra mentes estreitas, exceto a vida. E por vezes deixamos escapar aquilo que está no canto da vista... bem ali. Mas nosso pensamento está certo de seu objetivo, com métodos, projetos, etapas a cumprir. Catalogando, nomeando, numerando, identificando, seguindo adiante.

Cachaça.


Mas o fato é: todos vocês estão vivos tempo suficiente pra saber que parte da experiência humana resiste à nomeação e numeração. Todos vocês já passaram por experiências não-nomeáveis, e não-quantificáveis. E, ao mesmo tempo, já pensaram e repensaram sobre um assunto, e não chegaram à nenhuma saída. Até porque, sejamos francos... O pensamento último dirá que no final morremos, e qual o ponto de fazer algo, se no final vamos todos morrer?

Cachaça. Sorriso.

Este é o ponto onde descobre-se que o pensamento se locomove, mas se locomove tentando equilibrar-se sobre um monociclo com desejo próprio. Um monociclo chamado desejo. Um monociclo que tenta, o tempo todo, ir para diferentes lugares ao mesmo tempo, com diferentes intensidades para cada lugar. Como quando você está num buffet cheio de coisas gostosas.


Mas daí o pensamento escolhe um lugar específico, mata todo o resto do mundo - e suprime o desejos. Escolhe uma direção, segue, e esquece o resto.

E é aí que está a contradição fundamental do pensamento: ao tomar ciência de sua finitude existencial, ele descobre que na verdade ele tem um tempo pra improvisar, criar coisas, brincar, nesse Mundo Fantástico - e com os seres que nele habitam. Mas ele prefere virar o rosto, e criar objetos imaginários, provisórios e ilusórios para seguir adiante, e viver com uma sensação (falsa) de controle. 

Cachaça.

O movimento do pensamento é boa parte das vezes orientado por um paradigma não-racional, portanto. Esse pensamento não-racional, com desejo de se sentir senhor de si, vai necessitar novos objetivos fictícios, pois o Mundo Fantástico não cessa de lembrar-lhe da pequenez do escravo do pensamento. É necessário criar uma nova ilusão, para manter funcionando uma sensação de controle da própria existência.

Cachaça (quase no fim).

Desidentificando-se com seu próprio pensamento - ou seja, tomando consciência de que você pensa, mas você é mais do que o seu próprio pensamento -, torna-se possível vislumbrar o Mundo Fantástico onde vivemos... e os seres e desejos que nele habitam. E se dar conta de que o Mundo Real é fantasioso. E o País das Maravilhas é real. O mundo é uma multiplicidade de dores, de possíveis, de vida, de dramáticas... o tempo todo te convidando a juntar-se a ele... O que não significa felicidade, ao contrário! Significa dar-se conta de que o mundo é uma aventura, sem objetivos que não fazer de sua vida uma história que valha a pena ser contada e ouvida por outros... Não em livros, mas em rodas de bares, nas bocas de bardos e de atores mambemes... Devir-lenda, devir-conto, devir-história. E habitar o mundo em suas vicissitudes. É divertido. É doloroso. É lindo.

 Se estiver dormindo, e se quiser acordar, acorde.

Último gole de cachaça.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Trago noturno de um aprendiz de namorado (ao som de "Good Bait" by Nina Simone)

Música acessível em: 

https://www.youtube.com/results?search_query=nina+simone+good+bait


Trago noturno de um aprendiz incomodado. Olhando à cachaça no copo ao lado, volta-se para os alfarrábios, e tenta adivinhar o conteúdo das partes que faltam da receita, devoradas por vermes e fungos e tempo e mãos inábeis.

Trago noturno de um aprendiz determinado. Ansioso por seguir a receita, ansioso por não desapontar sua seita, ele compila, compara... receitas para efeitos semelhantes, receitas para efeitos simétricos... Seus pensamentos lhe queimam a mufa e reduzem em eficácia.

Trago noturno de um aprendiz educado. Que faz cálculos, que compara metas, métodos, efeitos, tratados. Que suspira, cansado, pensando em aprontar um bom resultado, para assim poder reduzir seu fardo.
 
Toma outro gole, e outro suspiro. Vai até à janela e a fecha, admira o vento, mas se protege do frio. Está cansado, irritado, apressado, sempre apressado, quase desesperado. Acha que não vai conseguir, toma outro gole, contempla o acaso. Seu fracasso.

E senta.

Trago noturno de um aprendiz embriagado. Que que desiste de tentar, e admira os ingredientes ali em sua frente, e faz piadas em sua voz interior sobre as diferentes propriedades de cada um deles.

Resolve brincar, para se distrair, combinando coisas que (bem dizem nos livros) não deveriam ser combinadas, mas parecem agradavelmente bonitas juntas, àquela hora erma e ébria da noite.


Trago noturno de aprendiz inspirado. A brincadeira toma consistência na noite, surgem efeitos interessantes, e desinteressados. Não mais preocupado em produzir resultados, o aprendiz cria. Não mais preocupado em atingir metas, ele pratica. E se liberta.



Trago noturno de um mestre embrionário. 

domingo, 27 de abril de 2014

Ganhando coragem no frio (ao som de "Come As You Are", by The Pierces)

 Música acessível em:

https://www.youtube.com/watch?v=E3451M5BJB0


A luz quente do abajour contrasta com o ar frio entrando pela porta do escritório.

A escuridão e a solidão agitam, solicitando direção: "Para onde vais? Para onde vais?"

Estacionadas sobre a mente do escritor as duas estão.

E continuam: "Já sabes onde estarás no final. Porque estacionas? O que temes?"

"Imaginamos que temes perder o que já não tens"

Levanta, vem que te guiamos.

E canta, enquanto andamos.

Porque a estrada é longa e difícil. Mas há boas paisagens e boas paradas no percurso.




domingo, 25 de agosto de 2013

Oração para a urbanização interior (ao som de "Today Has Been Okay", by Emiliana Torrini)

Música acessível em:

http://www.youtube.com/results?search_query=Emiliana+Torrini+-+Today+Has+Been+Okay&oq=Emiliana+Torrini+-+Today+Has+Been+Okay&gs_l=youtube.3..0i19.1379050.1379050.0.1380824.1.1.0.0.0.0.503.503.5-1.1.0...0.0...1ac.2.11.youtube.DQ0VQFbJJaw


Vida nobre que rápido passa,
Paro nesse momento, diante de vós,
E vos admiro em seu caráter mutante e contínuo.
E, enquanto vos observo, vós deixais de ser.

E agarro-vos por um instante, com um suspiro.
Fecho os olhos, e tento imaginar para quais lugares vós estais a vos dirigir.
Maravilhoso fluxo de encontros que se dirige a diversas direções ao mesmo tempo.

Vida, peço-vos que não me deixeis abandonar-vos,
Peço-vos que não me permitis passar por vós sem vos perceber,
E sem regozijar-me em sua abundância.

Permita-me estar sempre ao vosso lado,
Nos momentos de corrida, nos momentos de festa, e nos momentos de pausa,
Amém.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Para não levar a vida tão a sério (ao som de "Get Up Offa That Thing", by James Brown )

Música acessível em:

http://www.youtube.com/results?search_query=+james+brown+Get+Up+Offa+That+Thing&oq=+james+brown+Get+Up+Offa+That+Thing&gs_l=youtube.3..0l3.516926.521570.0.521856.19.17.2.0.0.0.276.2597.6j5j6.17.0...0.0...1ac.1.11.youtube.oP68KrsDp8s

Faz um tempo que não escrevo aqui. Retorno para cá pelo mesmo motivo: tentando escrever algo que não seja ciência, para assim conseguir escrever ciência. Eterno retorno do mesmo.

Abrindo as janelas, abrindo a cerveja, deixando o sol, o vento e a vida entrar. E praticar uns movimentos de dança.

Dance junto, se quiser.

Até mais.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Discutindo relação com a Tese (ao som de "Is You Is or Is You Ain't My Baby, by Anita O'Day)

Música acessível em:
http://www.youtube.com/watch?v=U6MY--5KX24&feature=fvst

Um meio de madrugada penetra pelas frestas da persiana, silenciando e escurecendo o quarto. O quarto, por sua vez, tenta se defender da escuridão de 3 da manhã utilizando a luz do abajour. Hesito em continuar a escrita. Posiciono o abajour em direção à tela do computador, privando os textos de luz.

Tomo um gole de Amarula. Suspiro. Reluto em escrever em primeira pessoa. Seguro a cabeça com a mão direita, olho para a esquerda, admiro minha estante cheia de livros, a grande maioria já lidos. Amanhã, muito trabalho a fazer. Suspiro. Tomo outro gole de Amarula.

Estou em crise de relação com meu objeto de pesquisa. Não sei, talvez o nosso relacionamento esteja esfriando... Está me faltando uma mobilização afetiva. Quero dizer, tenho vontade de pensar, de escrever, mas parece que as coisas estão presas, represadas em algum canto obscuro da minha mente. Esse afeto está precisando se movimentar, se exprimir, se demonstrar explicitamente. Parece que está tudo trancado aqui dentro.

Tenho de arranjar um jeito de resolver isso. Aliás, eu tenho de parar de tentar arranjar um jeito de resolver isso. Tenho me relacionado mais com meu bloqueio criativo do que com minha tese. Talvez seja exatamente por isso que estejamos nos distanciando. Suspiro. Balanço a taça de Amarula.

Vou ver se amanhã compro uns petiscos diferentes, uma bebida ligeiramente distinta, crio um clima, e acerto as coisas. Nós precisamos nos reaproximar... namorar um pouco. Mas, para isso, é necessário a gente ter um tempo de admiração recíproca, se redescobrir. São coisas como essas que sustentam uma relação.

Bem, tese, amanhã vamos jantar juntos. Só eu você. Como quase sempre, aliás. Suspiro. Salvo. Publico. Fecho.